
Ipuaçu entrou para o noticiário como o município brasileiro em que primeiro aconteceu o fenômeno mundialmente conhecido como crop circles – ou círculos nos trigais; ou agriglifos. A pequena cidade, localizada no oeste catarinense, próxima a Xanxerê, vive uma mudança profunda em seu cotidiano. Pessoas de todos os cantos do país – e algumas do exterior – têm visitado os círculos que apareceram nas plantações de trigo da região. Os círculos tornaram-se um chamariz turístico numa cidade que tem um dormitório e um hotel com seis quartos – um chamariz efêmero, já que uma das características dos crop circles é a de serem temporários: se a lavoura não for colhida a chuva, o sol e o vento se encarregarão de destruí-lo. Fica-se consternado com a tristeza dos habitantes do município, que repetem em uníssono sua insatisfação pela rápida degeneração do crop circle ocasionada pelo grande fluxo de visitantes. Os crops são efêmeros e – não nos enganemos – na Inglaterra e em outros países onde há maior ocorrência deste fenômeno, acontece a mesma coisa: visitantes pisoteando a plantação, deixando seu lixo e fazendo suas necessidades fisiológicas no local. Lá fora alguns agricultores reclamam da visitação e tratam de colher rapidamente suas plantações; outros colocam uma caixa para doações, alegando o prejuízo que terão na safra, e permitem o acesso das pessoas.
A grande questão – tanto aqui quanto lá – é quem faz os crop circles. Esta pergunta ainda não foi respondida de forma definitiva, sensata e coerente. O que se vê são pessoas tentando defender seus dogmas, aturdidas com o desconhecido e receosas de aceitar sua ignorância em relação ao fenômeno. O ufólogo visita o crop circle e sentencia: “Foram os extraterrestres.” O astrônomo não visita o crop circle e sentencia: “Foram moleques fazendo uma brincadeira de mau gosto.” O padre profere no sermão da missa dominical: “Mais um milagre de Deus.” O fanático define: “Um sinal da ira divina!” Todos despreocupados em esclarecer a verdade dos fatos, mas muito ciosos de manter o fenômeno dentro de seu sistema de crenças.
Existe um levantamento estatístico de 20 anos dos aparecimentos de agriglifos no mundo (veja com detalhes em http://www.cropcircleconnector.com/2008/2008.html). Formou-se em torno do fenômeno um batalhão de pesquisadores, místicos e devotos que têm sua vida focalizada nos crop circles. Apesar de tanta atenção – inclusive da ciência, que não conseguiu consolidar teorias sobre o fenômeno – a questão da autoria continua aberta, sem resposta.
Uma pergunta que seria cabível neste momento é a seguinte: para que servem os crop circles? Tantos anos de ocorrências num período em que as informações circulam instantaneamente no planeta devem ter um significado. Seriam mensagens? Ou sinais? Sinais de quê? A primeira associação que a televisão de Santa Catarina fez foi com o filme “Sinais”, de M. Night Shyamalan, em que o personagem vivido por Mel Gibson enfrenta malvados ETs que querem invadir a Terra e distribuem crop circles em torno do planeta marcando pontos de ataque. Os ETs do filme, além de malvados, são burros: o seu ponto fraco é a água; eles não resistem que lhes joguem um copo d’água e sucumbem. Além de invadirem um planeta que é formado por água em sua maior parte, eles não têm o bom senso de vestir uma capa de chuva e são derrotados pelos humanos. O filme é uma das maiores bobagens já colocadas na tela dos cinemas, mas é a única referência sobre crop circles que alcançou o grande público. Pobre povo que estuda história nos produtos de Hollywood.
E a questão permanece. Os ingleses com queda ao misticismo ou que vivem do fenômeno dizem que os crop circles acontecem predominantemente no Reino Unido porque lá está o povo que consegue interpretar os símbolos; lá estão as pessoas que têm a mente aberta para aceitar mensagens tão elevadas. Na hipótese de que isto seja correto, 20 anos de mensagens elevadas deveriam ter tido um efeito sensível na evolução daquele povo. Tiveram?
Ainda dentro da questão do motivo, ufólogos afirmam que seriam os sinais incontestáveis de vida extraterrestre fazendo contato com a humanidade. Ora, a própria ciência terrestre, tão impermeável a tudo que não se possa ensinar nas cadeiras acadêmicas, admite que sim, a probabilidade de vida em outros planetas é enorme – nós que ainda não a comprovamos. No aspecto dos contatos, até nós humanos conseguimos pensar em formas mais eficientes que símbolos em plantações. Não vale a pena misturar um mistério com outro: os fenômenos nos trigais podem não ter relação alguma com vida extraterrestre. Relacionar ambos é colocar no mesmo tubo de ensaio duas coisas que não conhecemos e tentar extrair daí uma explicação. É a mesma má-fé expressada pelo hipotético padre, que usa o fenômeno para fortalecer a fé do seu rebanho; é a mesma má-fé do hipotético astrônomo que refuta totalmente o desconhecido, decretando a morte do pesquisador que todo cientista deveria ser; é a mesma má-fé do fanático, que quer provar que o fim do mundo está próximo e o símbolo no trigal é a prova disto.
Quem for à Ipuaçu verá que os símbolos feitos nas plantações podem ter sido feitos por seres humanos; também perceberá que a confecção de cada crop circle (foram dois, na madrugada de 8 a 9 de novembro, similares e simultâneos em propriedades distantes cinco quilômetros uma da outra) demandaria algumas horas de trabalho cuidadoso e organizado, além de sigiloso. No âmbito do cuidadoso e organizado requerer-se-ia uma equipe de pessoas treinadas para a tarefa - não é algo que uma turma de bêbados faria após o baile; no aspecto do sigiloso seria necessário mais que a escuridão da noite. Os crops foram feitos a poucos metros da estrada, em área aberta e à vista das habitações. Um deles está na lavoura logo ao lado da cidade, numa estrada que dá acesso ao interior do município, tendo, portanto, tráfego constante – principalmente na madrugada mais movimentada da semana, sábado para domingo. Uma equipe trabalhando à noite para traçar figuras geométricas numa lavoura – senão perfeitas pelo menos bem feitas – fatalmente chamaria atenção. Guardar segredo disto em Ipuaçu seria fenômeno maior – quem vive ou viveu em pequenas cidades o sabe.
A autoria dos crop circles autênticos provavelmente permanecerá anônima: não foi descoberta em Wiltshire, na Inglaterra, e não o será em Ipuaçu, Brasil. O oeste catarinense tem a oportunidade de estabelecer-se como berço dos crop circles na América Latina, desde que não embarque nas teorias dogmáticas de plantão. Os brasileiros terão a oportunidade de acompanhar o fenômeno de perto: terminada a temporada inglesa de crop circles (registros deste ano de 19 de abril até 28 de setembro) poderá iniciar-se um ciclo brasileiro.
Mais do que acompanharmos o fenômeno teremos a oportunidade de definir uma atitude madura e consciente perante ele. Aceitarmos nossa ignorância a respeito do fenômeno não é demérito nem motivo para silenciarmos sobre o tema. O que não podemos fazer é atribuir aos crop circles características que sirvam para satisfazer interesses sectários. Não há o que temer e também não há o que adorar; existe o mistério e o desconhecido – nada que já não tenhamos enfrentado no passado desta humanidade.
Os crop circles têm sido belas obras de arte; enquanto nos debatemos com processos egóicos secundários nos esquecemos do mais óbvio: eles são belos. Seus autores – os anônimos – ficariam imensamente gratos se admirássemos a beleza destes símbolos nos trigais. Apenas isto, simples assim.