terça-feira, 2 de dezembro de 2008

O menino e o chocolate

Esta foto é de uma das ruas mais atingidas de Itajaí, SC, no dia 28 de novembro, na sexta-feira em que o sol brilhou um pouco e choveu menos que os dias anteriores. Não há muito que falar ou escrever sobre a imagem, que é eloqüente por si: o olhar do menino dá a dimensão da situação em que aquela comunidade mergulhou, literalmente.

A rua tinha cerca de 200 metros e terminava no rio; casas de moradia em ambos os lados. Todas atingidas; todas com pilhas de entulho – outrora móveis, colchões, comida, roupas etc – na sua frente. Os adultos movimentando-se freneticamente – ora tentando tornar as casas habitáveis, ora tentando conseguir alimentos e água. As crianças oscilavam entre a depressão – as mais lúcidas e conscientes da situação – e a alegria fantasiosa dos dias sem aula e das brincadeiras inusitadas.

O olhar do menino fez-me sentir culpado. Como alguém pode fotografar pessoas em sofrimento? Desliguei a câmera e parei o carro. Como permanecer impessoal perante tudo aquilo que estava ao meu redor? Como abafar a certeza da impotência em auxiliar aquelas pessoas?

Não pude fazer mais que dar uma barra de chocolate ao menino, único alimento que restava. Ele olhou a embalagem diferente, intuiu o que continha e estendeu-me a pequenina mão pela janela do carro. Não trocamos palavra; não houve sorriso.

Tudo o que fizermos para ajudar estas pessoas será insuficiente – tive esta certeza.