sábado, 17 de janeiro de 2009

A fé por um fio

O trecho abaixo é do “Jornal de Antares”, uma espécie de diário do personagem Martim Francisco Terra, no qual há um diálogo com o jovem padre Pedro-Paulo, que fala de suas fraquezas:

“Claro, muitas vezes tenho minhas dúvidas. Não faz muito atravessei um período de tão forte crise espiritual que escrevi uma longa carta a um monsenhor que admiro e estimo, contando-lhe tudo. Usei nessa carta confessional a expressão: ‘Sinto que minha fé está presa apenas por um fio’. Sabe o que ele me respondeu? Que se regozijava por saber que a coisa era assim, pois não confiava muito nas chamadas ‘fés inabaláveis’, dessas que julgam poder deslocar montanhas. São demasiadamente teatrais para serem profundas – escreveu o monsenhor: ‘O fio que prende sua fé deve ser do melhor aço e, portanto, resistente e ao mesmo tempo flexível. Fé sem flexibilidade, fé sem dúvida pode acabar em fanatismo. ’ Terminou a carta assim: ‘Reze a Deus, peça-lhe para que faça esse fio resplandecer sempre na Sua luz’.”

Extraído do livro “Incidente em Antares”, de Erico Verissimo, Companhia de Bolso (1ª edição, 5ª reimpressão – 2006), página 197

A fé é o último muro antes de nossa derrota. Muitos seres humanos são derrotados e desistem; permanecem aguardando a morte, muitas vezes ansiando por ela, em oposição ao medo viral que ela desperta. A fé deve ser defendida com todas as nossas forças, pois é ela que sempre nos ergue e nos impulsiona adiante. Não se fala aqui de uma fé numa doutrina ou num deus específicos. Não é a fé em algo que possa ser desenhado, descrito com palavras ou fotografado. O objeto da fé é a certeza de que vale a pena continuar caminhando, e que este caminho leva a um lugar mais elevado.

Mesmo que tudo que nos cerca aponte na direção contrária.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

A Força Futura

Ao crepúsculo do século XIX uma força desconhecida deixava todos intrigados e curiosos: tratava-se do motor Keely, construído por John Worrell Keely (1837-1898), que se movimentava independente de qualquer energia conhecida na época – e ainda hoje. Keely chamava esta energia de força etérea; criou uma empresa com o aporte de capital de vários investidores e manteve um laboratório para estas pesquisas por 26 anos. Nunca houve um produto ou serviço derivado destas pesquisas que pudesse ser comercializado; a empresa nunca distribuiu dividendos e o motor Keely ainda hoje é um mistério à ciência. Obviamente, como acontece em todas as situações não compreendidas pelo homem, houve a hipótese de fraude e charlatanismo. Helena Petrovna Blavatsky (1831-1891), ocultista que iniciou o movimento da Teosofia, escreveu sobre o assunto em sua obra fundamental – A Doutrina Secreta:

“A Filosofia Oculta não divulga senão um pequeno número de seus mistérios vitais mais importantes. Deixa-os cair, um por um, quais pérolas preciosas, a grandes intervalos; e só o faz, assim mesmo, quando a tal se vê compelida pela corrente evolutiva que conduz a humanidade, lentamente, silenciosamente, mas sem interrupção, para a aurora da Sexta Raça Humana. Porque, uma vez fora da custódia fiel de seus legítimos herdeiros e guardiães, tais mistérios deixam de ser ocultos, caem no domínio público e correm muita vez o risco de se converterem mais em malefícios do que em benefícios, se em mãos dos egoístas, dos Cains da raça humana. Apesar disso, quando surgem indivíduos como o descobridor da Força Etérica, homens dotados de faculdades especiais, psíquicas e mentais, são eles em geral e mais frequentemente coadjuvados, não se consentindo que sigam às tontas o seu caminho; se abandonados às próprias forças não tardariam a findar no martírio ou a tornar-se vítimas de especuladores sem escrúpulos. Mas somente são ajudados sob a condição de que não representem, consciente ou inconscientemente, um novo perigo para a sua época: um perigo para os pobres, oferecidos diariamente em holocausto pelos menos ricos aos mais ricos.”

A Doutrina Secreta, Volume II – Simbolismo Arcaico Universal, páginas 269 e 270

Motores e forças misteriosos à parte, a última frase do texto sempre me chamou a atenção, causando-me certo choque na primeira leitura. Aos poucos fui percebendo a veracidade crua desta sentença. Quem é que morre todos os dias por algum tipo de carência? Os muito ricos? Os menos ricos? Ou os pobres? Existe um holocausto diário de seres humanos miseráveis que não é contabilizado por não interessar a ninguém este tipo de estatística. Usemos como exemplo a chamada crise mundial que é tema de dez entre dez noticiários brasileiros.

Os muito ricos deixam de receber milhões de reais em bonificações e dividendos; são obrigados a adiar a troca do jato executivo para o ano seguinte e cortam os salários e promoções de seus funcionários – os menos ricos.

Os menos ricos deixam de receber alguns milhares de reais; são obrigados a adiar a troca do carro para o ano seguinte e deixam de dar a esmola de dois reais ao mendigo da rua – o pobre.

O pobre deixa de receber aqueles escassos reais diários; é obrigado a adiar suas refeições, enfraquece e morre.

A esmola de dois reais é uma redução proposital que simboliza os milhões de dólares que são enviados como ajuda humanitária aos miseráveis espalhados em todo o planeta pelos países muito e menos ricos. Quando os povos destes países são atingidos por eventos econômicos como o que vivemos, veem seus investimentos de risco perderem valor e seus empregos minguarem, a escolha é entre enviar dinheiro para alimentar pessoas que moram em países distantes ou investir no próprio país, criando empregos e salvando empresas.

Quando vejo que ainda nos movimentamos com rudimentares motores à explosão, ruidosos, fedorentos e pouco eficientes, creio que ainda teremos um longo caminho pela frente para que nos seja permitido um avanço tecnológico como o vislumbrado no motor Keely.