terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Carta de Públio Lentulus

A despeito do excelente livro Há dois mil anos, de Chico Xavier e Emmanuel, onde temos segurança nas informações sobre o Cristo Jesus, circula na internet uma suposta carta de Públio Lentulus ao César. A análise criteriosa não deixa dúvida sobre a falsidade do documento, mas, o que surpreende são as incitações subliminares que tem por objetivo nos afastar do Mestre.
Confira abaixo... O texto está conforme a divulgação; a análise está em vermelho. 
Carta de Publius Lentulus Cornelius
Foi encontrada uma carta do senador Publius Lentulus Cornelius nos arquivos do Duque de Cesadini
[Não foram encontradas referências aos referidos arquivos e à existência de um ducado Cesadini. Não existiu, aparentemente, um Duque de Cesadini, pois as buscas realizadas reportam páginas apenas relativas à carta da presente análise, em blogs e sites espíritas e de outras doutrinas cristãs.]
na cidade de Roma, enviada pelo senador em Jerusalém na época de Jesus, que havia sido endereçada ao imperador romano Tibério César. Nela, há uma descrição física e moral de Jesus feita pelo senador. A carta é a seguinte:
“Sabendo que desejas conhecer quanto vou narrar, existindo nos nossos tempos um homem, o qual vive atualmente de grandes virtudes, chamado Jesus, que pelo povo é inculcado o profeta da verdade, e os seus discípulos dizem que é filho de Deus, criador do céu e da terra e de todas as coisas que nela se acham e que nela tenham estado; em verdade, ó César, cada dia se ouvem coisas maravilhosas desse Jesus: ressuscita os mortos, cura os enfermos, em uma só palavra: é um homem de justa estatura e é muito belo no aspecto, e há tanta majestade no rosto, que aqueles que o veem são forçados a amá-lo ou temê-lo.
[O verbo “temer” é sinônimo de sentir medo, recear. Parece ser uma inverdade, já que não temos na literatura espírita séria este sentimento associado ao bondoso Nazareno. Os sentimentos relatados por Públio (XAVIER, F.C., Há dois mil anos, FEB, 4ª ed., Cap. V, Pg. 79 a 83) são de fascinação, emotividade ao coração, peito sufocado e opresso, estar comovido e magnetizado, admiração e espanto, e suave torpor. Nada que remeta a medo ou temor. Noutra passagem, no cap. VIII, pág. 136, durante a flagelação, “[...] os olhos encontraram os do senador, que baixou a fronte, tocado pela imorredora impressão daquela sobre-humana majestade.” Mesmo na situação limite do açoite, Públio sentiu-se compungido. Novamente, nenhum temor, nenhum medo ou receio.]
Tem os cabelos da cor amêndoa bem madura, são distendidos até as orelhas, e das orelhas até as espáduas, são da cor da terra, porém mais reluzentes.
Tem no meio de sua fronte uma linha separando os cabelos, na forma em uso nos nazarenos, o seu rosto é cheio, o aspecto é muito sereno, nenhuma ruga ou mancha se vê em sua face, de uma cor moderada; o nariz e a boca são irrepreensíveis.
A barba é espessa, mas semelhante aos cabelos, não muito longa, mas separada pelo meio, seu olhar é muito afetuoso e grave; tem os olhos expressivos e claros, o que surpreende é que resplandecem no seu rosto como os raios do sol, porém ninguém pode olhar fixo o seu semblante,
[Uma afirmação inverídica que parece ter o objetivo de propor um distanciamento que não deve existir entre o Pastor e suas ovelhas. “Enquanto os dois apóstolos fitavam em Jesus os olhos calmos e venturosos, Zebedeu o contemplava como se tivesse à sua frente o maior profeta de seu povo” (XAVIER, F.C., Boa Nova, FEB, 37ª ed., cap. 4, pág. 32). Do mesmo livro, cap. 9, pág. 64, “Todas as criaturas fitavam o Mestre, com os olhos agradecidos e refulgentes de amor”. Não há menção na literatura espírita séria, salvo engano, que corrobore a afirmação da suposta carta.]
porque quando resplende, apavora, e quando ameniza, faz chorar; faz-se amar e é alegre com gravidade.
[Novamente a sugestão de pavor, grande temor. Por que esta sugestão foi reiterada no texto? Para reforçar o paradigma de um deus punitivo?]
Diz-se que nunca ninguém o viu rir, mas, antes, chorar.
[Frase que sugere ser Jesus um ser sisudo, sério, grave, circunspecto, triste, sofredor. Não procede, segundo a literatura séria. O livro Há dois mil anos cita “o sorriso divino [...]”, no cap. V, pág. 79; “[...] achavam-se ambos diante do Mestre, que os acolheu com o seu generoso e profundo sorriso.”, no cap. VII, pág. 120; “[...] o sorriso generoso tinha a complacência [...]”, no cap. IX, pág. 412.]
Tem os braços e as mãos muito belos; na palestra, contenta muito, mas o faz raramente e, quando dele se aproxima, verifica-se que é muito modesto na presença e na pessoa. É o mais belo homem que se possa imaginar, muito semelhante à sua mãe, a qual é de uma rara beleza, não se tendo, jamais, visto por estas partes uma mulher tão bela,
[Não há indicação de encontro entre Públio e a Mãe Santíssima antes da crucificação. A suposta carta ao imperador teria sido escrita antes deste evento, de forma que a análise temporal resulta em impossibilidade do relato comparativo com a aparência de Maria.]
porém, se a majestade tua, ó César, deseja vê-lo, como no aviso passado escreveste, dá-me ordens, que não faltarei de mandá-lo o mais depressa possível.
[O senador Públio cita, na carta em análise, uma mensagem prévia de Tibério, como se o imperador tivesse solicitado ou dado a entender que gostaria de conhecer Jesus. O livro Há dois mil anos não faz nenhuma referência ao interesse do César, e o relato descrito é para Pilatos, já próximo aos eventos do Gólgota (cap. VIII, pág. 132).]
De letras, faz-se admirar de toda a cidade de Jerusalém; ele sabe todas as ciências e nunca estudou nada.
[A expressão “nunca estudou nada” não faz sentido no contexto que a suposta carta teria sido escrita, haja vista que o senador Públio Lêntulus, segundo Emmanuel, teve apenas um encontro com Jesus, e não tinha interesse em se aprofundar na história do Mestre galileu. O conhecimento dos fatos da vida do Cristo era difundido de boca em boca principalmente na casta dos escravos. Ana, escrava da família, tinha intimidade com Lívia, esposa do senador, com quem compartilhava as informações relativas a Jesus. “- A senhora se compromete com esta demasiada tolerância, que vai ao absurdo da fraternização com os escravos – disse Públio à esposa.” (XAVIER, F.C., Há dois mil anos, FEB, 4ª ed., Cap. VII, pág. 123). Minha suspeita: expressão inserida para justificar e/ou estimular a ojeriza e resistência ao estudo sistemático dentro das casas espíritas, por parte de alguns trabalhadores. Se Jesus é modelo e guia, por que eu deveria estudar?]
Ele caminha descalço e sem coisa alguma na cabeça. Muitos se riem, vendo-o assim, porém em sua presença, falando com ele, tremem e admiram.
[Novamente a alusão ao medo. Treme-se, comumente, de medo ou de frio. É a terceira indicação, na suposta carta, de que devemos ter medo de Jesus. Qual a razão disso? Nos afastar do Mestre, talvez?]
Dizem que um tal homem nunca fora ouvido por estas partes. Em verdade, segundo me dizem os hebreus, não se ouviram, jamais, tais conselhos, de grande doutrina, como ensina este Jesus; muitos judeus o têm como Divino e muitos me querelam, afirmando que é contra a lei de Tua Majestade; eu sou grandemente molestado por estes malignos hebreus.
[O duro adjetivo “malignos” dedicado aos hebreus nunca é utilizado por Públio no livro de Emmanuel/Chico. O senador se expressa, no livro Há dois mil anos, no momento de aconselhamento a Pilatos (cap. VIII, pág. 138), referindo-se ao povo hebreu como “multidão inconsciente”. Poderia a expressão “malignos hebreus” ter sido incluída no texto para acirrar o confronto histórico entre cristãos e judeus?]
Diz-se que este Jesus nunca fez mal a quem quer que seja, mas, ao contrário, aqueles que o conhecem e com ele têm praticado, afirmam ter dele recebido grandes benefícios e saúde, porém à tua obediência estou prontíssimo, aquilo que Tua Majestade ordenar será cumprido. Vale da Majestade tua, fidelíssimo e obrigadíssimo,”

Públius Lêntulus.