quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Machado, opinião e platéia

Numa época em que ter opinião e platéia tornaram-se o sonho de consumo mais valorizado da população, ler Machado de Assis nos remete à clareza de consciência dum dos nossos maiores escritores. Machado aliava uma moralidade pura e verdadeira à sua erudição e intelectualidade, e pode servir de baliza ética em nossos confusos tempos. O livro “Memórias...” é narrado pelo “falecido” Brás Cubas; o trecho abaixo complementa uma auto-análise do defunto onde afirmava que, em seus tempos de vivo, “... eu refletia as opiniões de um cabeleireiro, que achei em Módena, e que se distinguia por não as ter absolutamente.” É particularmente proveitoso que se faça uma analogia entre a morte do protagonista e o desaparecimento da personalidade que todos cultivamos com tanto zelo.

“Talvez espante ao leitor a franqueza com que lhe exponho e realço a minha mediocridade; advirto que a franqueza é a primeira virtude de um defunto. Na vida, o olhar da opinião, o contraste de interesses, a luta das cobiças obrigam a gente a calar os trapos velhos, a disfarçar os rasgões e os remendos, a não estender ao mundo as revelações que faz à consciência; e o melhor da obrigação é quando, à força de embaçar os outros, embaça-se um homem a si mesmo, porque em tal caso poupa-se o vexame, que é uma sensação penosa, e a hipocrisia, que é um vício hediondo. Mas, na morte, que diferença! Que desabafo! Que liberdade! Como a gente pode sacudir fora a capa, deitar ao fosso as lentejoulas, despregar-se, despintar-se, desafeitar-se, confessar lisamente o que foi e o que deixou de ser! Porque, em suma, já não há vizinhos, nem amigos, nem inimigos, nem conhecidos, nem estranhos; não há platéia. O olhar da opinião, este olhar agudo e judicial, perde a virtude, logo que pisamos o território da morte; não digo que ele se não estenda para cá, e nos não examine e julgue; mas a nós é que não se nos dá do exame nem do julgamento. Senhores vivos, não há nada tão incomensurável como o desdém dos finados.”

Extraído de “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis, página 63, L&PM Pocket.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Feirinha na UFSC

A Feira Agro Ecológica funciona todas as quartas-feiras, das 7h00 às 14h00, no amplo espaço central da UFSC, atrás da Reitoria, em Florianópolis. Você poderá encontrar lá hortaliças, frutas e outros produtos, todos na linha orgânica e ecológica. A feirinha, que tem um clima místico-hippie, oferece ainda chás, lanches veganos, livros esotéricos, artesanato e produtos cosméticos. Os preços são adequados; a maior parte dos produtos chega lá sem atravessadores. Uma dica é participar da compra coletiva que acontece todos os meses: você faz um pedido, paga adiantado e comparece no dia predeterminado para retirar sua compra. Os produtos – como farinhas integrais, grãos e açúcar – ficam ainda mais baratos, pois vêm direto da cooperativa de produtores orgânicos com o frete rateado e sem acréscimo de lucro. Vale a pena.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Crise... até quando?


Como todos sabem, estas “bolhas” financeiras são geradas para que alguns poucos – os que sabem mais – ganhem mais dinheiro. Quando chega o momento adequado estes poucos “estouram a bolha” usando estratagemas simples (fofocas, boatarias) que mexem com os medos dos que sabem menos. Estes fogem com seus dedos, deixando os anéis para aqueles. A maioria – os que sabem menos – dá mais dinheiro aos que sabem mais – a minoria. Os pobres ficam mais pobres; os miseráveis morrem.

Todo dia o planeta oferece milhares de seres humanos em holocausto a estas forças; em alguns momentos, porém, elas querem uma cota maior de sacrifício. Este é o momento que estamos vivendo. E todos concedem e aceitam como algo normal.  

Não é normal; não é correto; não é moral. Trata-se de latrocínio em massa, a céu aberto, às vistas de nossos governantes e luminares, que deveriam utilizar sua sapiência para nos guiar e proteger.

A crise perdurará até que as forças que a geraram tirem o último dólar do mais pobre entre os pobres do planeta.

sábado, 4 de outubro de 2008

Olhar os lírios do campo e as aves do céu


O amor de Olívia e Eugênio é o aspecto mais envolvente do livro “Olhai os lírios do campo”, de Erico Verissimo; um amor conturbado pelas pretensões materiais de Eugênio que se torna mais real após o falecimento de Olívia. Através das cartas que ela escrevia – sem nunca enviá-las – Erico Verissimo semeia diamantes no árido solo dos romances, pedras preciosas que poderiam estar em compêndios de filosofia, religião ou espiritualidade. Sua visão coerente e unificada da vida, onde não existe separação entre o espírito e a matéria, nos traz uma percepção prática e possível de ensinamentos sagrados. Na transcrição a seguir, Eugênio está lendo a carta que Olívia lhe deixou, antes de entrar para a sala de cirurgia, de onde saiu sem vida.

“Quero que abras os olhos, Eugênio, que acordes enquanto é tempo. Peço-te que (...) leias apenas o Sermão da Montanha. (...) Os homens deviam ler e meditar esse trecho, principalmente no ponto em que Jesus nos fala dos lírios do campo que não trabalham nem fiam, e no entanto nem Salomão em toda a sua glória jamais se vestiu como um deles.

Está claro que não devemos tomar as parábolas de Cristo ao pé da letra e ficar deitados à espera de que tudo nos caia do céu. É indispensável trabalhar, pois um mundo de criaturas passivas seria também triste e sem beleza. Precisamos, entretanto, dar um sentido humano às nossas construções. E quando o amor ao dinheiro, ao sucesso nos estiver deixando cegos, saibamos fazer pausas para olhar os lírios do campo e as aves do céu.

Não penses que estou fazendo o elogio do puro espírito contemplativo e da renúncia, ou que ache que o povo deva viver narcotizado pela esperança da felicidade na ‘outra vida’. Há na terra um grande trabalho a realizar. É tarefa para seres fortes, para corações corajosos. Não podemos cruzar os braços enquanto os aproveitadores sem escrúpulos engendram os monopólios ambiciosos, as guerras e as intrigas cruéis. Temos de fazer-lhes frente. É indispensável que conquistemos este mundo, não com as armas do ódio e da violência, e sim com as do amor e da persuasão. Considera a vida de Jesus. Ele foi antes de tudo um homem de ação e não um puro contemplativo.

Quando falo em conquista, quero dizer a conquista duma situação decente para todas as criaturas humanas, a conquista da paz digna, através do espírito de cooperação. E quando falo de aceitar a vida não me refiro à aceitação resignada e passiva de todas as desigualdades, malvadezas, absurdos e misérias do mundo. Refiro-me, sim, à aceitação da luta necessária, do sofrimento que esta luta nos trará, das horas amargas a que ela forçosamente nos há de levar.”

Extraído de “Olhai os lírios do campo”, de Erico Verissimo, páginas 153 e 154, Companhia das Letras, 4ª edição. O trecho citado do Sermão da Montanha está em Mateus, 6, 24-34