
Numa época em que ter opinião e platéia tornaram-se o sonho de consumo mais valorizado da população, ler Machado de Assis nos remete à clareza de consciência dum dos nossos maiores escritores. Machado aliava uma moralidade pura e verdadeira à sua erudição e intelectualidade, e pode servir de baliza ética em nossos confusos tempos. O livro “Memórias...” é narrado pelo “falecido” Brás Cubas; o trecho abaixo complementa uma auto-análise do defunto onde afirmava que, em seus tempos de vivo, “... eu refletia as opiniões de um cabeleireiro, que achei em Módena, e que se distinguia por não as ter absolutamente.” É particularmente proveitoso que se faça uma analogia entre a morte do protagonista e o desaparecimento da personalidade que todos cultivamos com tanto zelo.
“Talvez espante ao leitor a franqueza com que lhe exponho e realço a minha mediocridade; advirto que a franqueza é a primeira virtude de um defunto. Na vida, o olhar da opinião, o contraste de interesses, a luta das cobiças obrigam a gente a calar os trapos velhos, a disfarçar os rasgões e os remendos, a não estender ao mundo as revelações que faz à consciência; e o melhor da obrigação é quando, à força de embaçar os outros, embaça-se um homem a si mesmo, porque em tal caso poupa-se o vexame, que é uma sensação penosa, e a hipocrisia, que é um vício hediondo. Mas, na morte, que diferença! Que desabafo! Que liberdade! Como a gente pode sacudir fora a capa, deitar ao fosso as lentejoulas, despregar-se, despintar-se, desafeitar-se, confessar lisamente o que foi e o que deixou de ser! Porque, em suma, já não há vizinhos, nem amigos, nem inimigos, nem conhecidos, nem estranhos; não há platéia. O olhar da opinião, este olhar agudo e judicial, perde a virtude, logo que pisamos o território da morte; não digo que ele se não estenda para cá, e nos não examine e julgue; mas a nós é que não se nos dá do exame nem do julgamento. Senhores vivos, não há nada tão incomensurável como o desdém dos finados.”
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