sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Jorge e a Bolsa de Valores

Jorge estava arrasado. O que tinha feito de errado? No dia anterior havia sido chamado à delegacia de polícia: seu filho mais velho tinha atropelado uma pessoa, que estava hospitalizada, em estado grave. A polícia constatou que ele dirigia alcoolizado e encontrou cocaína e uma arma no porta-luvas. Onde ele tinha errado? Dera toda a liberdade aos filhos, educação em escolas particulares, mesadas gordas, boa moradia... Nunca imaginara que o filho fosse fazer algo parecido. Sim, sabia que era um pai ausente, mas não deixava faltar nada em casa. Sempre confiara totalmente no filho, mas agora... Pedira um extrato das contas do cartão no banco e quase teve um ataque: o rapaz tinha criado para si um padrão de vida muito além das posses da família. Nos últimos meses ele tinha feito compras para pagamento parcelado no cartão cuja soma extrapolava os rendimentos salariais da família. Vivia uma ilusão, comprando tudo que desejava, fazendo tudo que queria, gastando sem limites. Mas onde ele, Jorge, tinha errado? Teria havido sinais prévios de tudo aquilo e ele não percebera?

O rapaz já estava em casa, trancado no quarto e – se conhecia bem sua esposa – sendo consolado pela mãe. Jorge já fazia as contas de como poderia honrar aqueles gastos: cortar a mesada de todos os filhos, transferências de escola e trocar o apartamento (bairro e condomínio nobilíssimos) por outro (padrão da época da faculdade – a sua) seriam as primeiras providências. Todos teriam de pagar pelo que o filho fizera.

Estava especialmente atormentado pelo que tivera de fazer para que o filho não ficasse preso e pelo que o esperava para livrá-lo do processo judicial. Abominava o advogado que o ajudara. O sujeito – diziam – tinha conexões nebulosas com autoridades, políticos, juízes, ricaços e criminosos que extrapolavam em muito os limites das leis e do juramento dos advogados. “Prometo exercer a advocacia com dignidade e independência, observar a ética... defender a Constituição...” Ainda lembrava-se de alguns trechos de uma formatura do curso de Direito no ano passado. Sabia que o sujeito era um bandido, mas ele tinha tirado seu filho da delegacia em meia hora; garantira que o processo daria em nada e, em um ou dois anos, tudo estaria apagado das memórias policial, jurídica e jornalística. O pagamento que dera ao advogado fora de setenta mil reais; sabia que teria mais a pagar no futuro.

Existem dois temas no noticiário atual que tenho dificuldade em entender: o acelerador de partículas na Europa e a crise na economia mundial. Já perdi a esperança de compreender para que serve o tal LHC mas me esforço no segundo tema. Quando me lembrei da história de Jorge, percebi que não havia muita diferença entre os dois casos além, obviamente, do tamanho do estrago.

O pai seria o presidente Bush, o W., sempre o último a saber das coisas, dando liberdade além da medida mais por preguiça e inércia do que por convicção no conceito. O filho personificaria os bancos e os especuladores da Bolsa que, aproveitando a vista grossa e a intelectualidade imoral dos MBAs, se lançam em aventuras irresponsáveis pensando apenas em si próprios. A família seríamos todos nós, contribuintes que pagam impostos, padecem pelos erros de poucos e são convocados quando algo dá errado – raras vezes quando dá certo.

Quem seria o advogado, nesta fictícia história e improvável analogia? Quem encarnaria o personagem que é chamado quando tudo já desmoronou, usa todos os meios – legais e não – para resolver a situação e leva o seu no final? O que me parece mais adequado está na capa da revista Veja desta semana: Tio Sam apontando para todos nós, brasileiros, e dizendo “– Eu salvei você!”. Hoje Tio Sam é Henry Paulson, secretário do Tesouro, que está tratando de afastar a kriptonita do controle institucional americano para que seus superpoderes possam ser ampliados e, segundo ele, salvar o mundo.

O duro é ter de engolir a Veja tentando nos convencer de que o advogado é o herói da história.



quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Steiner e o nosso aprendizado


Rudolf Steiner proferiu dez conferências em Karlsruhe (Alemanha), em outubro de 1911, que foram organizadas no livro “De Jesus a Cristo”, editado no Brasil pela Antroposófica. No final do último capítulo – Liberdade e redenção – Steiner faz considerações sobre a contribuição que pôde ser feita naqueles dias de estudos para a evolução da humanidade:
“Só pudemos juntar, de cada vez, alguns elementos isolados; mas estes constituem uma contribuição para o grande templo espiritual da humanidade – desde que atuem em nossa alma de maneira a fazer-nos sentir um impulso para maiores buscas e desenvolvimento no caminho cognitivo. O melhor que podemos levar, de tal consideração baseada na Ciência Espiritual, é o fato de termos aprendido mais alguma coisa para atingir nossa meta, e de termos enriquecido nossos conhecimentos. Qual é esta meta? Saber, cada vez melhor, o quanto ainda nos falta para sabermos mais; e devemos ser cada vez mais permeados pela sabedoria desta antiga sentença socrática: ‘Quanto mais aprendemos, melhor sabemos o quão pouco sabemos. ’ Mas esta sentença só será proveitosa quando sentirmos não como revelação de uma resignação destituída de ações e metas, mas como profissão de fé de um querer e de um almejar vivos, em busca de conhecimentos cada vez mais amplos. Não confessemos nossa ignorância dizendo que, já que não podemos saber tudo, melhor é nada aprender e cruzar os braços! Esse seria um resultado deveras errôneo de nossas considerações esotéricas. A atitude correta é sentir o ânimo para buscar sempre mais e considerar o aprendido como um degrau; precisamos sempre dar novos passos para chegar a degraus mais elevados.” (Extraído das páginas 193 e 194, 2ª edição; negritos do blog)

domingo, 21 de setembro de 2008

Uma árvore a menos...

Na calada da manhã de sábado, 20 de setembro, nos fundos do prédio do IPUF no centro de Florianópolis (SC), mais uma árvore com décadas de vida é derrubada. Este foi o pano de fundo de nosso desjejum: homens e máquinas cumprindo suas tarefas de eliminar - com um mínimo de platéia - um ser vivo do reino vegetal que estava atrapalhando uma obra civil. Perguntei-me, naquele momento e durante todo o final de semana, se os engenheiros envolvidos neste projeto realmente esgotaram todas as possibilidades para manter e salvar o belo cinamomo. Era um cinamomo? Havia uma árvore ali?, perguntar-se-ão os apressados motoristas e caminhantes habituais da rua Emílio Blum na segunda-feira pela manhã. Na terça-feira a pergunta já não será mais elaborada pela mente... Na quarta-feira estaremos convencidos de que a paisagem foi sempre aquela, de muros, paredes e concreto.

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Estudo sobre o Perdão


No mês de maio de 2008 este estudo foi apresentado pela primeira vez, e posteriormente publicado na internet. Esta instrução é direcionada à desmistificação do perdão, ferramenta útil e necessária para nossas vidas. O texto simples e claro facilita a aplicação prática e cotidiana. O estudo está disponível no idioma português (2ª revisão) e espanhol (1ª revisão); apenas em português, "A história de Judite e Tobias" , que é complementar ao ensinamento do Perdão. Esta história é baseada nas vidas reais de pessoas que escolheram utilizar - ou não - a ferramenta do perdão em suas trajetórias. Você pode copiar, imprimir, compartilhar e recomendar todos estes documentos livremente.
Imagem do telescópio Hubble:NASAESA, N. Smith (Univ. of California), and Hubble Heritage Team (STScI/AURA)