
Jorge estava arrasado. O que tinha feito de errado? No dia anterior havia sido chamado à delegacia de polícia: seu filho mais velho tinha atropelado uma pessoa, que estava hospitalizada, em estado grave. A polícia constatou que ele dirigia alcoolizado e encontrou cocaína e uma arma no porta-luvas. Onde ele tinha errado? Dera toda a liberdade aos filhos, educação em escolas particulares, mesadas gordas, boa moradia... Nunca imaginara que o filho fosse fazer algo parecido. Sim, sabia que era um pai ausente, mas não deixava faltar nada em casa. Sempre confiara totalmente no filho, mas agora... Pedira um extrato das contas do cartão no banco e quase teve um ataque: o rapaz tinha criado para si um padrão de vida muito além das posses da família. Nos últimos meses ele tinha feito compras para pagamento parcelado no cartão cuja soma extrapolava os rendimentos salariais da família. Vivia uma ilusão, comprando tudo que desejava, fazendo tudo que queria, gastando sem limites. Mas onde ele, Jorge, tinha errado? Teria havido sinais prévios de tudo aquilo e ele não percebera?
O rapaz já estava em casa, trancado no quarto e – se conhecia bem sua esposa – sendo consolado pela mãe. Jorge já fazia as contas de como poderia honrar aqueles gastos: cortar a mesada de todos os filhos, transferências de escola e trocar o apartamento (bairro e condomínio nobilíssimos) por outro (padrão da época da faculdade – a sua) seriam as primeiras providências. Todos teriam de pagar pelo que o filho fizera.
Estava especialmente atormentado pelo que tivera de fazer para que o filho não ficasse preso e pelo que o esperava para livrá-lo do processo judicial. Abominava o advogado que o ajudara. O sujeito – diziam – tinha conexões nebulosas com autoridades, políticos, juízes, ricaços e criminosos que extrapolavam em muito os limites das leis e do juramento dos advogados. “Prometo exercer a advocacia com dignidade e independência, observar a ética... defender a Constituição...” Ainda lembrava-se de alguns trechos de uma formatura do curso de Direito no ano passado. Sabia que o sujeito era um bandido, mas ele tinha tirado seu filho da delegacia em meia hora; garantira que o processo daria em nada e, em um ou dois anos, tudo estaria apagado das memórias policial, jurídica e jornalística. O pagamento que dera ao advogado fora de setenta mil reais; sabia que teria mais a pagar no futuro.
Existem dois temas no noticiário atual que tenho dificuldade em entender: o acelerador de partículas na Europa e a crise na economia mundial. Já perdi a esperança de compreender para que serve o tal LHC mas me esforço no segundo tema. Quando me lembrei da história de Jorge, percebi que não havia muita diferença entre os dois casos além, obviamente, do tamanho do estrago.
O pai seria o presidente Bush, o W., sempre o último a saber das coisas, dando liberdade além da medida mais por preguiça e inércia do que por convicção no conceito. O filho personificaria os bancos e os especuladores da Bolsa que, aproveitando a vista grossa e a intelectualidade imoral dos MBAs, se lançam em aventuras irresponsáveis pensando apenas em si próprios. A família seríamos todos nós, contribuintes que pagam impostos, padecem pelos erros de poucos e são convocados quando algo dá errado – raras vezes quando dá certo.
Quem seria o advogado, nesta fictícia história e improvável analogia? Quem encarnaria o personagem que é chamado quando tudo já desmoronou, usa todos os meios – legais e não – para resolver a situação e leva o seu no final? O que me parece mais adequado está na capa da revista Veja desta semana: Tio Sam apontando para todos nós, brasileiros, e dizendo “– Eu salvei você!”. Hoje Tio Sam é Henry Paulson, secretário do Tesouro, que está tratando de afastar a kriptonita do controle institucional americano para que seus superpoderes possam ser ampliados e, segundo ele, salvar o mundo.
O duro é ter de engolir a Veja tentando nos convencer de que o advogado é o herói da história.
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