terça-feira, 2 de dezembro de 2008

O menino e o chocolate

Esta foto é de uma das ruas mais atingidas de Itajaí, SC, no dia 28 de novembro, na sexta-feira em que o sol brilhou um pouco e choveu menos que os dias anteriores. Não há muito que falar ou escrever sobre a imagem, que é eloqüente por si: o olhar do menino dá a dimensão da situação em que aquela comunidade mergulhou, literalmente.

A rua tinha cerca de 200 metros e terminava no rio; casas de moradia em ambos os lados. Todas atingidas; todas com pilhas de entulho – outrora móveis, colchões, comida, roupas etc – na sua frente. Os adultos movimentando-se freneticamente – ora tentando tornar as casas habitáveis, ora tentando conseguir alimentos e água. As crianças oscilavam entre a depressão – as mais lúcidas e conscientes da situação – e a alegria fantasiosa dos dias sem aula e das brincadeiras inusitadas.

O olhar do menino fez-me sentir culpado. Como alguém pode fotografar pessoas em sofrimento? Desliguei a câmera e parei o carro. Como permanecer impessoal perante tudo aquilo que estava ao meu redor? Como abafar a certeza da impotência em auxiliar aquelas pessoas?

Não pude fazer mais que dar uma barra de chocolate ao menino, único alimento que restava. Ele olhou a embalagem diferente, intuiu o que continha e estendeu-me a pequenina mão pela janela do carro. Não trocamos palavra; não houve sorriso.

Tudo o que fizermos para ajudar estas pessoas será insuficiente – tive esta certeza.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Estudo sobre o PERDÃO

Imagem da NASA - Plêiades

Reiteramos os endereços dos textos referentes ao estudo sobre o PERDÃO – objetivo primário da criação deste blog.

·         Estudo em português: clique aqui Ä

·         Estudo em espanhol: clique aqui Ä

·         “A história de Judite e Tobias”, complemento ao curso, em português: clique aqui Ä

 Os textos podem ser copiados e compartilhados livremente. Endereço alternativo para os arquivos clique aqui Ä 


quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Pobres aves...

Esta foto foi tirada num dia de chuva pesada desta semana: os animais – galinhas, pombas e outros – presos em gaiolas sem cobertura ficam sujeitos às intempéries. Feita a denúncia, a Coordenadoria do Bem Estar Animal de Florianópolis informa que o estabelecimento é reincidente em maus tratos aos animais e que tomará as providências cabíveis e possíveis. Uma ação simples e eficiente que podemos todos fazer é a de não comprar na Agropecuária Eliseu, que fica na SC 401, n° 4240.

Ultimamente todos os dias têm sido chuvosos. Os animais colocados à venda ficam encharcados o dia inteiro, sem ter onde se abrigar, enquanto a cobertura frontal da loja é utilizada para cobrir ferramentas e outros produtos.

Enquanto não aprendermos a respeitar uma pedra, uma planta e um animal, o respeito entre humanos será sempre relativo. 

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Crop circles na Inglaterra



Imagens extraídas do calendário 2008 do Wiltshire Crop Circle Study Group

Relaciono abaixo alguns sites que acompanham o fenômeno dos crop circles.

http://www.cropcircleconnector.com

http://www.wccsg.com/

http://www.temporarytemples.co.uk/

Dos ETs à ira divina

Ipuaçu entrou para o noticiário como o município brasileiro em que primeiro aconteceu o fenômeno mundialmente conhecido como crop circles – ou círculos nos trigais; ou agriglifos.  A pequena cidade, localizada no oeste catarinense, próxima a Xanxerê, vive uma mudança profunda em seu cotidiano. Pessoas de todos os cantos do país – e algumas do exterior – têm visitado os círculos que apareceram nas plantações de trigo da região. Os círculos tornaram-se um chamariz turístico numa cidade que tem um dormitório e um hotel com seis quartos – um chamariz efêmero, já que uma das características dos crop circles é a de serem temporários: se a lavoura não for colhida a chuva, o sol e o vento se encarregarão de destruí-lo. Fica-se consternado com a tristeza dos habitantes do município, que repetem em uníssono sua insatisfação pela rápida degeneração do crop circle ocasionada pelo grande fluxo de visitantes. Os crops são efêmeros e – não nos enganemos – na Inglaterra e em outros países onde há maior ocorrência deste fenômeno, acontece a mesma coisa: visitantes pisoteando a plantação, deixando seu lixo e fazendo suas necessidades fisiológicas no local. Lá fora alguns agricultores reclamam da visitação e tratam de colher rapidamente suas plantações; outros colocam uma caixa para doações, alegando o prejuízo que terão na safra, e permitem o acesso das pessoas.

A grande questão – tanto aqui quanto lá – é quem faz os crop circles. Esta pergunta ainda não foi respondida de forma definitiva, sensata e coerente. O que se vê são pessoas tentando defender seus dogmas, aturdidas com o desconhecido e receosas de aceitar sua ignorância em relação ao fenômeno. O ufólogo visita o crop circle e sentencia: “Foram os extraterrestres.” O astrônomo não visita o crop circle e sentencia: “Foram moleques fazendo uma brincadeira de mau gosto.” O padre profere no sermão da missa dominical: “Mais um milagre de Deus.” O fanático define: “Um sinal da ira divina!” Todos despreocupados em esclarecer a verdade dos fatos, mas muito ciosos de manter o fenômeno dentro de seu sistema de crenças.

Existe um levantamento estatístico de 20 anos dos aparecimentos de agriglifos no mundo (veja com detalhes em http://www.cropcircleconnector.com/2008/2008.html). Formou-se em torno do fenômeno um batalhão de pesquisadores, místicos e devotos que têm sua vida focalizada nos crop circles. Apesar de tanta atenção – inclusive da ciência, que não conseguiu consolidar teorias sobre o fenômeno – a questão da autoria continua aberta, sem resposta.

Uma pergunta que seria cabível neste momento é a seguinte: para que servem os crop circles? Tantos anos de ocorrências num período em que as informações circulam instantaneamente no planeta devem ter um significado. Seriam mensagens? Ou sinais? Sinais de quê? A primeira associação que a televisão de Santa Catarina fez foi com o filme “Sinais”, de M. Night Shyamalan, em que o personagem vivido por Mel Gibson enfrenta malvados ETs que querem invadir a Terra e distribuem crop circles em torno do planeta marcando pontos de ataque. Os ETs do filme, além de malvados, são burros: o seu ponto fraco é a água; eles não resistem que lhes joguem um copo d’água e sucumbem. Além de invadirem um planeta que é formado por água em sua maior parte, eles não têm o bom senso de vestir uma capa de chuva e são derrotados pelos humanos. O filme é uma das maiores bobagens já colocadas na tela dos cinemas, mas é a única referência sobre crop circles que alcançou o grande público. Pobre povo que estuda história nos produtos de Hollywood.

E a questão permanece. Os ingleses com queda ao misticismo ou que vivem do fenômeno dizem que os crop circles acontecem predominantemente no Reino Unido porque lá está o povo que consegue interpretar os símbolos; lá estão as pessoas que têm a mente aberta para aceitar mensagens tão elevadas. Na hipótese de que isto seja correto, 20 anos de mensagens elevadas deveriam ter tido um efeito sensível na evolução daquele povo. Tiveram?

Ainda dentro da questão do motivo, ufólogos afirmam que seriam os sinais incontestáveis de vida extraterrestre fazendo contato com a humanidade. Ora, a própria ciência terrestre, tão impermeável a tudo que não se possa ensinar nas cadeiras acadêmicas, admite que sim, a probabilidade de vida em outros planetas é enorme – nós que ainda não a comprovamos. No aspecto dos contatos, até nós humanos conseguimos pensar em formas mais eficientes que símbolos em plantações. Não vale a pena misturar um mistério com outro: os fenômenos nos trigais podem não ter relação alguma com vida extraterrestre. Relacionar ambos é colocar no mesmo tubo de ensaio duas coisas que não conhecemos e tentar extrair daí uma explicação. É a mesma má-fé expressada pelo hipotético padre, que usa o fenômeno para fortalecer a fé do seu rebanho; é a mesma má-fé do hipotético astrônomo que refuta totalmente o desconhecido, decretando a morte do pesquisador que todo cientista deveria ser; é a mesma má-fé do fanático, que quer provar que o fim do mundo está próximo e o símbolo no trigal é a prova disto.

Quem for à Ipuaçu verá que os símbolos feitos nas plantações podem ter sido feitos por seres humanos; também perceberá que a confecção de cada crop circle (foram dois, na madrugada de 8 a 9 de novembro, similares e simultâneos em propriedades distantes cinco quilômetros uma da outra) demandaria algumas horas de trabalho cuidadoso e organizado, além de sigiloso. No âmbito do cuidadoso e organizado requerer-se-ia uma equipe de pessoas treinadas para a tarefa - não é algo que uma turma de bêbados faria após o baile; no aspecto do sigiloso seria necessário mais que a escuridão da noite. Os crops foram feitos a poucos metros da estrada, em área aberta e à vista das habitações. Um deles está na lavoura logo ao lado da cidade, numa estrada que dá acesso ao interior do município, tendo, portanto, tráfego constante – principalmente na madrugada mais movimentada da semana, sábado para domingo. Uma equipe trabalhando à noite para traçar figuras geométricas numa lavoura – senão perfeitas pelo menos bem feitas – fatalmente chamaria atenção. Guardar segredo disto em Ipuaçu seria fenômeno maior – quem vive ou viveu em pequenas cidades o sabe.

A autoria dos crop circles autênticos provavelmente permanecerá anônima: não foi descoberta em Wiltshire, na Inglaterra, e não o será em Ipuaçu, Brasil. O oeste catarinense tem a oportunidade de estabelecer-se como berço dos crop circles na América Latina, desde que não embarque nas teorias dogmáticas de plantão. Os brasileiros terão a oportunidade de acompanhar o fenômeno de perto: terminada a temporada inglesa de crop circles (registros deste ano de 19 de abril até 28 de setembro) poderá iniciar-se um ciclo brasileiro.

Mais do que acompanharmos o fenômeno teremos a oportunidade de definir uma atitude madura e consciente perante ele. Aceitarmos nossa ignorância a respeito do fenômeno não é demérito nem motivo para silenciarmos sobre o tema. O que não podemos fazer é atribuir aos crop circles características que sirvam para satisfazer interesses sectários. Não há o que temer e também não há o que adorar; existe o mistério e o desconhecido – nada que já não tenhamos enfrentado no passado desta humanidade.

Os crop circles têm sido belas obras de arte; enquanto nos debatemos com processos egóicos secundários nos esquecemos do mais óbvio: eles são belos. Seus autores – os anônimos – ficariam imensamente gratos se admirássemos a beleza destes símbolos nos trigais. Apenas isto, simples assim.

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Machado, opinião e platéia

Numa época em que ter opinião e platéia tornaram-se o sonho de consumo mais valorizado da população, ler Machado de Assis nos remete à clareza de consciência dum dos nossos maiores escritores. Machado aliava uma moralidade pura e verdadeira à sua erudição e intelectualidade, e pode servir de baliza ética em nossos confusos tempos. O livro “Memórias...” é narrado pelo “falecido” Brás Cubas; o trecho abaixo complementa uma auto-análise do defunto onde afirmava que, em seus tempos de vivo, “... eu refletia as opiniões de um cabeleireiro, que achei em Módena, e que se distinguia por não as ter absolutamente.” É particularmente proveitoso que se faça uma analogia entre a morte do protagonista e o desaparecimento da personalidade que todos cultivamos com tanto zelo.

“Talvez espante ao leitor a franqueza com que lhe exponho e realço a minha mediocridade; advirto que a franqueza é a primeira virtude de um defunto. Na vida, o olhar da opinião, o contraste de interesses, a luta das cobiças obrigam a gente a calar os trapos velhos, a disfarçar os rasgões e os remendos, a não estender ao mundo as revelações que faz à consciência; e o melhor da obrigação é quando, à força de embaçar os outros, embaça-se um homem a si mesmo, porque em tal caso poupa-se o vexame, que é uma sensação penosa, e a hipocrisia, que é um vício hediondo. Mas, na morte, que diferença! Que desabafo! Que liberdade! Como a gente pode sacudir fora a capa, deitar ao fosso as lentejoulas, despregar-se, despintar-se, desafeitar-se, confessar lisamente o que foi e o que deixou de ser! Porque, em suma, já não há vizinhos, nem amigos, nem inimigos, nem conhecidos, nem estranhos; não há platéia. O olhar da opinião, este olhar agudo e judicial, perde a virtude, logo que pisamos o território da morte; não digo que ele se não estenda para cá, e nos não examine e julgue; mas a nós é que não se nos dá do exame nem do julgamento. Senhores vivos, não há nada tão incomensurável como o desdém dos finados.”

Extraído de “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis, página 63, L&PM Pocket.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Feirinha na UFSC

A Feira Agro Ecológica funciona todas as quartas-feiras, das 7h00 às 14h00, no amplo espaço central da UFSC, atrás da Reitoria, em Florianópolis. Você poderá encontrar lá hortaliças, frutas e outros produtos, todos na linha orgânica e ecológica. A feirinha, que tem um clima místico-hippie, oferece ainda chás, lanches veganos, livros esotéricos, artesanato e produtos cosméticos. Os preços são adequados; a maior parte dos produtos chega lá sem atravessadores. Uma dica é participar da compra coletiva que acontece todos os meses: você faz um pedido, paga adiantado e comparece no dia predeterminado para retirar sua compra. Os produtos – como farinhas integrais, grãos e açúcar – ficam ainda mais baratos, pois vêm direto da cooperativa de produtores orgânicos com o frete rateado e sem acréscimo de lucro. Vale a pena.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Crise... até quando?


Como todos sabem, estas “bolhas” financeiras são geradas para que alguns poucos – os que sabem mais – ganhem mais dinheiro. Quando chega o momento adequado estes poucos “estouram a bolha” usando estratagemas simples (fofocas, boatarias) que mexem com os medos dos que sabem menos. Estes fogem com seus dedos, deixando os anéis para aqueles. A maioria – os que sabem menos – dá mais dinheiro aos que sabem mais – a minoria. Os pobres ficam mais pobres; os miseráveis morrem.

Todo dia o planeta oferece milhares de seres humanos em holocausto a estas forças; em alguns momentos, porém, elas querem uma cota maior de sacrifício. Este é o momento que estamos vivendo. E todos concedem e aceitam como algo normal.  

Não é normal; não é correto; não é moral. Trata-se de latrocínio em massa, a céu aberto, às vistas de nossos governantes e luminares, que deveriam utilizar sua sapiência para nos guiar e proteger.

A crise perdurará até que as forças que a geraram tirem o último dólar do mais pobre entre os pobres do planeta.

sábado, 4 de outubro de 2008

Olhar os lírios do campo e as aves do céu


O amor de Olívia e Eugênio é o aspecto mais envolvente do livro “Olhai os lírios do campo”, de Erico Verissimo; um amor conturbado pelas pretensões materiais de Eugênio que se torna mais real após o falecimento de Olívia. Através das cartas que ela escrevia – sem nunca enviá-las – Erico Verissimo semeia diamantes no árido solo dos romances, pedras preciosas que poderiam estar em compêndios de filosofia, religião ou espiritualidade. Sua visão coerente e unificada da vida, onde não existe separação entre o espírito e a matéria, nos traz uma percepção prática e possível de ensinamentos sagrados. Na transcrição a seguir, Eugênio está lendo a carta que Olívia lhe deixou, antes de entrar para a sala de cirurgia, de onde saiu sem vida.

“Quero que abras os olhos, Eugênio, que acordes enquanto é tempo. Peço-te que (...) leias apenas o Sermão da Montanha. (...) Os homens deviam ler e meditar esse trecho, principalmente no ponto em que Jesus nos fala dos lírios do campo que não trabalham nem fiam, e no entanto nem Salomão em toda a sua glória jamais se vestiu como um deles.

Está claro que não devemos tomar as parábolas de Cristo ao pé da letra e ficar deitados à espera de que tudo nos caia do céu. É indispensável trabalhar, pois um mundo de criaturas passivas seria também triste e sem beleza. Precisamos, entretanto, dar um sentido humano às nossas construções. E quando o amor ao dinheiro, ao sucesso nos estiver deixando cegos, saibamos fazer pausas para olhar os lírios do campo e as aves do céu.

Não penses que estou fazendo o elogio do puro espírito contemplativo e da renúncia, ou que ache que o povo deva viver narcotizado pela esperança da felicidade na ‘outra vida’. Há na terra um grande trabalho a realizar. É tarefa para seres fortes, para corações corajosos. Não podemos cruzar os braços enquanto os aproveitadores sem escrúpulos engendram os monopólios ambiciosos, as guerras e as intrigas cruéis. Temos de fazer-lhes frente. É indispensável que conquistemos este mundo, não com as armas do ódio e da violência, e sim com as do amor e da persuasão. Considera a vida de Jesus. Ele foi antes de tudo um homem de ação e não um puro contemplativo.

Quando falo em conquista, quero dizer a conquista duma situação decente para todas as criaturas humanas, a conquista da paz digna, através do espírito de cooperação. E quando falo de aceitar a vida não me refiro à aceitação resignada e passiva de todas as desigualdades, malvadezas, absurdos e misérias do mundo. Refiro-me, sim, à aceitação da luta necessária, do sofrimento que esta luta nos trará, das horas amargas a que ela forçosamente nos há de levar.”

Extraído de “Olhai os lírios do campo”, de Erico Verissimo, páginas 153 e 154, Companhia das Letras, 4ª edição. O trecho citado do Sermão da Montanha está em Mateus, 6, 24-34

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Jorge e a Bolsa de Valores

Jorge estava arrasado. O que tinha feito de errado? No dia anterior havia sido chamado à delegacia de polícia: seu filho mais velho tinha atropelado uma pessoa, que estava hospitalizada, em estado grave. A polícia constatou que ele dirigia alcoolizado e encontrou cocaína e uma arma no porta-luvas. Onde ele tinha errado? Dera toda a liberdade aos filhos, educação em escolas particulares, mesadas gordas, boa moradia... Nunca imaginara que o filho fosse fazer algo parecido. Sim, sabia que era um pai ausente, mas não deixava faltar nada em casa. Sempre confiara totalmente no filho, mas agora... Pedira um extrato das contas do cartão no banco e quase teve um ataque: o rapaz tinha criado para si um padrão de vida muito além das posses da família. Nos últimos meses ele tinha feito compras para pagamento parcelado no cartão cuja soma extrapolava os rendimentos salariais da família. Vivia uma ilusão, comprando tudo que desejava, fazendo tudo que queria, gastando sem limites. Mas onde ele, Jorge, tinha errado? Teria havido sinais prévios de tudo aquilo e ele não percebera?

O rapaz já estava em casa, trancado no quarto e – se conhecia bem sua esposa – sendo consolado pela mãe. Jorge já fazia as contas de como poderia honrar aqueles gastos: cortar a mesada de todos os filhos, transferências de escola e trocar o apartamento (bairro e condomínio nobilíssimos) por outro (padrão da época da faculdade – a sua) seriam as primeiras providências. Todos teriam de pagar pelo que o filho fizera.

Estava especialmente atormentado pelo que tivera de fazer para que o filho não ficasse preso e pelo que o esperava para livrá-lo do processo judicial. Abominava o advogado que o ajudara. O sujeito – diziam – tinha conexões nebulosas com autoridades, políticos, juízes, ricaços e criminosos que extrapolavam em muito os limites das leis e do juramento dos advogados. “Prometo exercer a advocacia com dignidade e independência, observar a ética... defender a Constituição...” Ainda lembrava-se de alguns trechos de uma formatura do curso de Direito no ano passado. Sabia que o sujeito era um bandido, mas ele tinha tirado seu filho da delegacia em meia hora; garantira que o processo daria em nada e, em um ou dois anos, tudo estaria apagado das memórias policial, jurídica e jornalística. O pagamento que dera ao advogado fora de setenta mil reais; sabia que teria mais a pagar no futuro.

Existem dois temas no noticiário atual que tenho dificuldade em entender: o acelerador de partículas na Europa e a crise na economia mundial. Já perdi a esperança de compreender para que serve o tal LHC mas me esforço no segundo tema. Quando me lembrei da história de Jorge, percebi que não havia muita diferença entre os dois casos além, obviamente, do tamanho do estrago.

O pai seria o presidente Bush, o W., sempre o último a saber das coisas, dando liberdade além da medida mais por preguiça e inércia do que por convicção no conceito. O filho personificaria os bancos e os especuladores da Bolsa que, aproveitando a vista grossa e a intelectualidade imoral dos MBAs, se lançam em aventuras irresponsáveis pensando apenas em si próprios. A família seríamos todos nós, contribuintes que pagam impostos, padecem pelos erros de poucos e são convocados quando algo dá errado – raras vezes quando dá certo.

Quem seria o advogado, nesta fictícia história e improvável analogia? Quem encarnaria o personagem que é chamado quando tudo já desmoronou, usa todos os meios – legais e não – para resolver a situação e leva o seu no final? O que me parece mais adequado está na capa da revista Veja desta semana: Tio Sam apontando para todos nós, brasileiros, e dizendo “– Eu salvei você!”. Hoje Tio Sam é Henry Paulson, secretário do Tesouro, que está tratando de afastar a kriptonita do controle institucional americano para que seus superpoderes possam ser ampliados e, segundo ele, salvar o mundo.

O duro é ter de engolir a Veja tentando nos convencer de que o advogado é o herói da história.



quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Steiner e o nosso aprendizado


Rudolf Steiner proferiu dez conferências em Karlsruhe (Alemanha), em outubro de 1911, que foram organizadas no livro “De Jesus a Cristo”, editado no Brasil pela Antroposófica. No final do último capítulo – Liberdade e redenção – Steiner faz considerações sobre a contribuição que pôde ser feita naqueles dias de estudos para a evolução da humanidade:
“Só pudemos juntar, de cada vez, alguns elementos isolados; mas estes constituem uma contribuição para o grande templo espiritual da humanidade – desde que atuem em nossa alma de maneira a fazer-nos sentir um impulso para maiores buscas e desenvolvimento no caminho cognitivo. O melhor que podemos levar, de tal consideração baseada na Ciência Espiritual, é o fato de termos aprendido mais alguma coisa para atingir nossa meta, e de termos enriquecido nossos conhecimentos. Qual é esta meta? Saber, cada vez melhor, o quanto ainda nos falta para sabermos mais; e devemos ser cada vez mais permeados pela sabedoria desta antiga sentença socrática: ‘Quanto mais aprendemos, melhor sabemos o quão pouco sabemos. ’ Mas esta sentença só será proveitosa quando sentirmos não como revelação de uma resignação destituída de ações e metas, mas como profissão de fé de um querer e de um almejar vivos, em busca de conhecimentos cada vez mais amplos. Não confessemos nossa ignorância dizendo que, já que não podemos saber tudo, melhor é nada aprender e cruzar os braços! Esse seria um resultado deveras errôneo de nossas considerações esotéricas. A atitude correta é sentir o ânimo para buscar sempre mais e considerar o aprendido como um degrau; precisamos sempre dar novos passos para chegar a degraus mais elevados.” (Extraído das páginas 193 e 194, 2ª edição; negritos do blog)

domingo, 21 de setembro de 2008

Uma árvore a menos...

Na calada da manhã de sábado, 20 de setembro, nos fundos do prédio do IPUF no centro de Florianópolis (SC), mais uma árvore com décadas de vida é derrubada. Este foi o pano de fundo de nosso desjejum: homens e máquinas cumprindo suas tarefas de eliminar - com um mínimo de platéia - um ser vivo do reino vegetal que estava atrapalhando uma obra civil. Perguntei-me, naquele momento e durante todo o final de semana, se os engenheiros envolvidos neste projeto realmente esgotaram todas as possibilidades para manter e salvar o belo cinamomo. Era um cinamomo? Havia uma árvore ali?, perguntar-se-ão os apressados motoristas e caminhantes habituais da rua Emílio Blum na segunda-feira pela manhã. Na terça-feira a pergunta já não será mais elaborada pela mente... Na quarta-feira estaremos convencidos de que a paisagem foi sempre aquela, de muros, paredes e concreto.

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Estudo sobre o Perdão


No mês de maio de 2008 este estudo foi apresentado pela primeira vez, e posteriormente publicado na internet. Esta instrução é direcionada à desmistificação do perdão, ferramenta útil e necessária para nossas vidas. O texto simples e claro facilita a aplicação prática e cotidiana. O estudo está disponível no idioma português (2ª revisão) e espanhol (1ª revisão); apenas em português, "A história de Judite e Tobias" , que é complementar ao ensinamento do Perdão. Esta história é baseada nas vidas reais de pessoas que escolheram utilizar - ou não - a ferramenta do perdão em suas trajetórias. Você pode copiar, imprimir, compartilhar e recomendar todos estes documentos livremente.
Imagem do telescópio Hubble:NASAESA, N. Smith (Univ. of California), and Hubble Heritage Team (STScI/AURA)